DE PORTAS FECHADAS

[…] nenhum testemunho é suficiente para demonstrar um milagre, a não ser que o testemunho seja de natureza tal que a sua falsidade seja mais milagrosa do que o facto que tenta demonstrar.

27 dezembro 2005

A DESCODIFICAÇÃO


-Não vais a lado nenhum Ripanço! Berrou a velhota franzindo o sobrolho.
-Mas será que não percebe? È importante! Dizia o rapaz com veemência.
-És o meu único neto! Não tenho outra família. Peço-te. Não saias daqui! A voz da velhota era agora de angústia.
Jeremias sugeriu:
-Deixem. Eu vou sozinho.
-Vais perder tempo, sussurrou a velhota. È impossível descodificar o livro!
Jeremias ficou branco. Como saberia a velhota do livro e do descodificador?
- Só preciso que me indiquem o caminho por favor. Eu irei sozinho. Repetiu Jeremias.
A velhota resolveu abrir o jogo:
-Olha meu filho, eu sei da existência do livro que revela acontecimentos estranhos. Sei também que o livro foi guardado por dois animais estranhos que pertenceram ao teu tio. E por acaso sei também onde o livro está guardado e não teremos de fazer grande viagem para o ver…
-Não? Perguntou Jeremias.
-Não. Anda daí que eu mostro-to mas aviso-te já que não irás perceber patavina.
As três figuras saíram dali guiadas pela feição ainda ágil da velha e três vales adiante depuraram-se à entrada de uma gruta trancada com dois portões de madeira.
A velhota debruçou-se nuns arbustos contíguos e apareceu como uma grande chave na mão. Rodou a chave abrindo os portões em par. Jeremias pode verificar tratar-se de um pequeno local, pouco arejado e sem visibilidade onde apenas uma mesa de madeira velha e um banco de tronco de oliveira serviam de mobília.
A velhota abriu uma gaveta na parte debaixo da mesa e retirou um grande livro encadernado:
-Aqui está! Retorquiu. Mas despacha-te que temos que o recolocar aqui. Além disso não vais perceber nada.
Para espanto de todos, Jeremias retirou o descodificador do bolso e começou a traduzir:

"Tenho provas que provocarão o escândalo dos republicanos anticlericais, a divisão não poupará as fileiras católicas.
Uma forte polémica sobre Fátima anima a principal imprensa católica em Outubro e Novembro de 1917. Perante a prudência de todos os sectores da militância católica relativamente a relatos de aparições, sem dúvida que o milagre do 13 de Outubro em Fátima marcou uma primeira viragem da frieza para o entusiasmo. No entanto, rápida e importante, essa viragem não foi universal.Entre os presentes nessa data estava um dos mais destacados dirigentes do movimento católico, Domingos Pinto Coelho. Este advogado e proprietário miguelista, fundador e candidato pelo primeiro ensaio de partido católico em Portugal (em 1901), publica na primeira página do principal diário católico- A Ordem- um testemunho em que afirma peremptoriamente que está convencido que se presenciou não um milagre do Sol, mas um fenómeno natural: "Estes fenómenos [...] impressionaram-nos fortemente. (...) Uma dúvida nos restava porém. O que víramos no Sol era cousa excepcional? Ou reproduzir-se-ia em circunstâncias análogas? Ora precisamente essa analogia de circunstâncias proporcionou-se-nos ontem. (...) Vimos as mesmas sucessões de cores, o mesmo investimento rotativo, etc." E daí concluiu: "Eliminado pois o único facto extraordinário, que fica? (...) As afirmações de três crianças e nada mais. É muito pouco. (...) Voltámos de Fátima naquele mesmo estado de espírito em que para lá fôramos- na dúvida." (A Ordem, 16.10.1917; cit. António T. Fernandes, op. cit., pp. 93 ss.)Qual o sentido destas polémicas entre e no seio dos dois campos em confronto na questão religiosa- o republicano e o católico? Penso que é necessário tirar três conclusões fundamentais: a primeira é a de que esses campos em confronto estavam longe de ser uniformes; a segunda é a de que Fátima foi, desde o início, uma questão politizada; a terceira é a de que os videntes e as suas declarações foram marginalizados com uma enorme rapidez.Começando pelo fim: Lúcia e Jacinta teimam em declarar que a guerra acabara em 13 de Outubro de 1917, quando ela durou até Novembro do ano seguinte? Esse não é assunto que vá merecer grande atenção, o que importa na imprensa da época é estabelecer se houve um milagre ou uma fraude, qual o significado político do acontecido e quais as suas consequências em termos da questão religiosa.Quanto à primeira questão, se para muitos republicanos as aparições da Cova da Iria e o seu apoio popular são a confirmação da capacidade de manipulação do Jesuíta e de quão enraizada é a crendice popular que é preciso extirpar, para outros defensores do novo regime, o êxito das aparições- verdadeiras ou não- mostra aonde leva a política errada da ala mais anticlerical do republicanismo: ao acicatar da hostilidade popular contra a República.Note-se, no entanto, que mesmo entre os laicistas radicais não houve consenso sobre a forma de lidar com Fátima. Devia-se ignorar os acontecimentos ou requerer a intervenção das autoridades para fazer cumprir a intangível Lei da Separação, que tornava ilegal o tipo de ajuntamentos espontâneos realizados em torno dos videntes? Os mais importantes jornais desta corrente são o espelho disso: O Mundo segue a segunda via, a Montanha segue a primeira, e justifica assim o seu silêncio a respeito de Fátima: "Pergunta-nos um constante leitor a razão por que não falámos ainda no caso de Fátima. Pela simplicíssima razão de não costumarmos mexer em porcarias" (23.10.1917; cit. in António T. Fernandes, op. cit., p. 135).Os militantes católicos dividem-se sobre se houve ou não milagre em Fátima. Mas, com tanto ardor ou mais (apenas um pouco mais nas entrelinhas), discutem a utilidade ou o risco de Fátima para o esforço de mobilização que move as hostes católicas no sentido de se organizarem politicamente para combater o anticlericalismo. De um lado, Domingos Pinto Coelho acentua o perigo do descrédito para os católicos que Fátima representa, e recomenda estrita reserva; tanto mais que a massa amorfa de peregrinos não lhe parece poder vir a ser útil no esforço da mobilização católica. Do outro, Gonçalo Almeida Garrett entendia que, devidamente educada e enquadrada, a piedade informe dos peregrinos poderia ser de grande valor para a campanha em favor da restauração política e social da Igreja Católica, como se tornará claro pela sua acção posterior: foi ele quem elaborou, no início, dos anos 20 um célebre guia do peregrino e forneceu as letras fortemente politizadas de uma série de hinos que enquadrarão as grandes peregrinações anuais.Quanto à questão da politização de Fátima, no contexto do Portugal de Maio a Outubro de 1917 um acontecimento daquela natureza não podia deixar de ser aspirado para o centro da "questão religiosa" que era um elemento fundamental de vida política. Os sucessos da Cova da Iria buliam com aspectos essenciais da confrontação entre católicos (na oposição) e laicistas anticlericais (no poder): eram uma manifestação pública de religiosidade não autorizada pelas autoridades civis; e a suposta vinda de Nossa Senhora e o seu apelo à paz configuravam um duplo desafio ao projecto dos republicanos no poder. Em primeiro lugar, como uma embaraçosa emergência do delírio religioso que pretendiam eliminar. Em segundo lugar, pondo em causa o esforço de guerra, prioridade absoluta de Afonso Costa e dos seus seguidores, mas que lhes causava enormes dificuldades internas.A afirmação de Lúcia e Jacinta de que a Senhora tinha dito que a guerra acabava em 13 de Outubro de 1917 e que os soldados iam regressar, não correspondendo à realidade, revela uma verdade essencial: o clima de crise geral que "politiza" um meio rural alheio à política num sentido mais "sofisticado". A preocupação com a guerra é uma pulsão essencial no desenhar da relação dos videntes com a Senhora. É praticamente a única coisa sobre a qual as figuras do clero vindas para interrogá-los os interrogam por iniciativa própria. E é das poucas coisas sobre as quais as autoridades por sua vez interrogam essas figuras. Lúcia pergunta ao padre José F. Lacerda, capelão militar no CEP em licença em Outubro de 1917: "Olhe cá, aquilo lá na guerra morre muita gente?- A Jacinta tem lá um irmão..." (In Documentação Crítica de Fátima. I. Interrogatórios aos videntes- 1917, Santuário de Fátima, p. 353). Este irmão mais velho de Francisco e Jacinta- "o meu Manuel"- fora recrutado e enviado para Cabo Verde, o que para as crianças e os seus pais é a guerra na mesma”


Jeremias foi interrompido na sua tradução por um golpe de machado que lhe cortou a nuca prostrando-o por terra. A última imagem que viu foi um medalhão que pendia do peito da velha onde uma fotografia antiga de um homem baixo de cara redonda e avermelhada parecia sorrir.
A velhota recolheu o livro e o descodificador.
- Vamos Ripanço a nossa missão está cumprida!

FIM

08 dezembro 2005

A MORTE DE ARTUR DAS CABRAS


Artur entrou na carroça aliviado. Finalmente ia voltar para a sua casa e ia poder descansar de todos estes fenómenos que nunca lhe passara pela cabeça poder ver.
A carroça era puxada por dois cavalos pretos, fortes como dois bois de jugo e em menos de um ápice estariam nas terras da beira em casa.
Seis horas depois de terem saído de Sintra o homem baixo de cara redonda e avermelhada parou bruscamente a carroça.
-Onde estamos? Perguntou Artur atónito.
-Hoje vai assistir a algo grandioso antes de ir para casa. Mas não se preocupe não levará muito tempo!
Saltaram da carroça e esconderam-se atrás de uns arbusto baixos, dali podiam ver todo um vale descampado, apenas uma ou outra árvore rasteira picotava a extensa planície.
-Mas que raio? Que vamos fazer? Bramia Artur das Cabras.
- Calma, quero apenas ver se corre tudo bem! E além disso você será testemunha…
De repente Artur vislumbra três crianças que brincavam por ali, ainda esfregava os olhos a tentar descobrir outros factos de interesse no vale, quando um clarão lhe chamou a atenção.
Artur já tinha visto um clarão igual, mas desta vez para seu espanto, uma senhora toda vestida de branco assomou no cimo de uma azinheira.
Artur ainda estava em transe quando o homem baixo de cara redonda e avermelhada o agarrou pelo braço a sussurrar:
- Correu tudo como planeado. Vamos depressa!
- Artur estava esgazeado, não conseguia formar ideias coerentes na sua cabeça; horas depois já a carroça recortava a estrada de sul para norte, quando finalmente consegui perguntar:
- Estamos a ir para casa?
-Claro, respondeu o homem baixo de cara redonda e avermelhada – e agora você é também uma testemunha do maior acontecimento de sempre. O homem baixo de cara redonda e avermelhada fez uma pausa, olhou Artur de alto a baixo e suspirou:
-Você Artur, foi um privilegiado…
Artur não disse mais nada, era tudo muito confuso, fechou os olhos e quando os voltou a abrir estava diante da sua casa.
-Adeus! Disse o homem baixo de cara redonda e avermelhada, - está entregue, tenho a certeza que vai ouvir falar muito no fenómeno que hoje viu.
Artur apenas conseguiu fazer um gesto com a cabeça. Subiu os degraus de pedra abriu a porta da rua e estendeu-se ao comprido na velha cama de madeira; dormiu durante dois dias, acordou com as pessoas na rua a gritar:
-Foi um milagre! Somos uma nação protegida!
Artur não disse uma palavra, levantou-se e viu em cima da mesa um grande livro aberto. Debruçou-se para tentar ver o que dizia, mas depressa percebeu que não estaria escrito na sua língua pois não percebia uma única palavra. De repente Artur lembrou-se do “Ser Estranho” e do seu rebanho.
Estariam lá as cabras de que o “Ser Estranho” lhe falara?
Artur foi a uma gaveta de onde retirou uma velha caneta, tinham sido poucas as vezes em que a utilizara; debruçou-se de novo e escreveu três páginas no final do livro que alguém ali deixara:
-É o meu testemunho! Pensou.
Ao lado do livro, duas páginas soltas tinham uns rabiscos que pareciam ser letras e símbolos, Artur aproximou-as dos seus grandes olhos e pode verificar que se tratava de uma tabela de código: Depressa percebeu o que era. Cada símbolo tinha à frente a letra correspondente. Era a forma de traduzir o velho livro que estava na mesa.
Preparava-se para iniciar a descodificação quando foi interrompido por um barulho. Estava alguém a bater à porta.
Artur escondeu o livro num buraco da parede e foi ver quem era.
-Artur, há quanto tempo! Disse uma voz.
-Entra Tónio Anjinho.
- Nem queres saber do teu rebanho…Olha, eu tenho tratado dele e quero-te dizer que estranhamente apareceram por lá mais duas cabras….
Artur agarrou-lhe no braço e perguntou com a voz a tremer:
- E essas cabras são normais?
- Claro que são normais, mas porque perguntas isso?
- Têm acontecido coisas estranhas, mas entra que eu conto-te tudo.
Artur contou ao amigo todos os acontecimentos estranhos em que estivera envolvido, o bispo, o ser estranho, a aparição…
-Incrível disse Tónio Anjinho, mas tem cuidado que podes ter visto demasiadas coisas.
-Se me acontecer alguma coisa trata-me do gado. Disse Artur despedindo-se do amigo.
Tónio Anjinho saiu dali não querendo acreditar que Artur havia ficado louco.

Nessa noite dois homens entraram em casa de Artur, bateram-lhe e torturam-no mas a única coisa que conseguiram arrancar-lhe foram as folhas que continham o descodificador.
No dia seguinte Artur foi encontrado morto, debaixo de uma carroça.

26 novembro 2005

O Ripanço


Jeremias saiu de casa da velhota. Tinha voltado à estaca zero. Precisava de uma pista que o levasse a encontrar os animais estranhos que haviam pertencido ao seu tio.
Começava a desesperar e com vontade de voltar para casa:
- Não vim aqui fazer nada – pensava ele enquanto descia um caminho largo de terra batida que ia desembocar num cais fluvial.
Chegado ao rio Jeremias deparou-se com um rapaz, mais ou menos da sua idade que ajoelhado, consertava uma pequena embarcação de madeira.
O rapaz olhou-o de alto a baixo com um martelo numas das mãos como que para se defender de um potencial ataque.
- Bom dia – disse Jeremias com um ar sorridente esforçando-se por parecer amistoso.
- Quem és tu? A voz do rapaz era trémula como que para disfarçar uma gaguez evidente.
- Sou o Jeremias, vinha á procura de uma pessoa, mas já me disseram que morreu!
- Procuras o Tónio Anjinho não é? – Questionou o rapaz.
Jeremias ficou atónito. Como é que este rapaz podia saber quem ele procurava.
- É muito feio ouvir as conversas encostado às portas – ripostou Jeremias tentando verificar se fora desse modo que o rapaz obtivera a informação.
O rapaz deu dois passos na direcção de Jeremias, fazia agora um ar muito mais simpático:
- O meu nome é Ripanço - disse o rapaz. Eu era sobrinho do Tónio Anjinho e o meu tio disse-me antes de morrer que talvez o viessem procurar. Desde altura sempre que aparece alguém de novo por aqui eu fico a pensar que vem à procura dele.
- Mas o teu tio morreu. Certo?
- Certo. – Gaguejou o Ripanço. – Lembro-me como se fosse hoje, apanharam-no, amarraram-no e depois mataram-nos e tentaram fazer-nos acreditar que foi um acidente.
- E sabes quem foi?
-Não! Não sei quem foi. Mas nessa noite segui os assassinos do meu tio. Eles vieram para o matar e para lhe roubarem os dois animais estranhos que te trouxeram também a ti para cá. Não sei que segredos guardavam esses animais mas deve ser algo de muito importante…
- Seguiste-os? E para onde foram?
- Andei a pé durante sete noites. Apenas descansava durante o dia tal como os assassinos. Fiz um mapa do caminho e posso jurar que os animais foram levados para um grande convento perto de Sintra.
- Para um convento? Perguntou Jeremias baralhado?
- Se quiseres levo-te até lá tartamudeou o Ripanço.
A alguns metros dali a velhota, esforçava-se por tentar ouvir a conversa entre os dois rapazes.
- Não os posso deixar ir… murmurou a arcaica mulher.

21 novembro 2005

A Negociação



Artur estava atordoado. Empurrado pela mão forte de um homem baixo e de cara redonda e avermelhada seguia por um caminho escuro. A lua por vezes tapada por farrapos de nuvens dispersas reflectia a luz suficiente para que conseguissem enxergar o trilho. Na cabeça de Artur das Cabras nada fazia sentido. Não sabia porque estava ali a ser empurrado para a presença de um Bispo que o queria ver. Sentia-se emaranhado numa teia de acontecimentos aos quais era completamente alheio mas que por obra do destino o acorrentavam cada vez mais.
Na penumbra da noite conseguia aperceber-se que fazia o mesmo caminho que ainda à pouco tempo fizera na fuga. Não havia dúvidas estava a regressar ao convento onde não fora nada bem tratado.
Desta vez Artur entrava pela porta principal do convento. Atravessaram um grande pátio interior e ficaram de frente a uma parede com três portas iguais. O homem baixo de cara redonda e avermelhada aproximou-se da porta do meio e bateu devagar com a mão.
-Entre! Disse o Bispo no interior.
- Apanhamos o homem mas houve uma baixa!
- Saia daqui! Depois falamos, espero que tenha sido estritamente necessário. O Bispo estava irado.
- Ele ia fugir – disse com a voz sumida o homem baixo de cara redonda e avermelhada.
– Deixe-me falar com o Senhor Artur! Interrompeu o Bispo
Artur ficou de pé, numa sala grande, iluminada por dois grandes candelabros de cristal que evidenciavam o poder eclesiástico. À sua frente o Bispo, ajeitava a sotaina preta e apertava uma grande cinta cor púrpura que condizia com o pequeno chapelete que usava em cima da cabeça.
Artur queria perguntar porque estava ali mas foi interrompido pelo Bispo:
- Sente-se! – Ordenou.
Artur viu uma cadeira de madeira com uma almofada avermelhada e deu dois passos na sua direcção:
- Não! Sente-se aqui ao pé de mim. Não lhe vou fazer mal nem o senhor a mim! – Dizia o Bispo enquanto puxava outra cadeira igual.
- Não sei o que faço aqui! Conseguiu dizer Artur.
- Aposto que tem tido uns dias férteis em situações estranhas…
Artur interrompeu-o e enchendo-se de coragem continuou:
- Olhe Sr. Bispo, eu apenas quero voltar para casa…. Não me interessa nada do que vi e confesso que nada do que vi faz sentido. Se me prendem aqui para que eu não fale podem ficar sossegados pois eu não contarei nada.
- E o que viu? Questionou o Bispo com curiosidade.
Artur estava agora empolgado. Sabia que se fosse inteligente e se contasse o mínimo possível, talvez pudesse voltar para casa.
- Vi uns homens na minha aldeia, parecia um circo, com fumo e com um barulho terrível… Depois só me lembro acordar aqui. Acorrentado. Consegui fugir e enquanto descansava veio ter comigo um ser horrivelmente feio. Parecia-me uma mistura de homem com um animal… esse ser estranho estava quase a morrer mas o homem que me foi buscar tratou de lhe abreviar o caminho… Se é isso que querem que eu não conte eu não contarei, mas deixem-me ir! Eu juro que não conto a ninguém que mataram aquele ser estranho!
- E esse ser falou consigo?
- Não! Tinha acabado de chegar quando apareceu o homem que o matou.
O Bispo pareceu ter ficado aliviado.
- Sabe Senhor Artur, o que viu foi uma obra do demónio. Um ser possuído que tínhamos mesmo de eliminar… o senhor acredita em Deus?
- Creio sim! Respondeu Artur.
O Bispo percebeu que talvez tivesse uma oportunidade de passar Artur das Cabras para o seu lado talvez isso ainda lhe pudesse ser útil.
- Quando fechamos os olhos – disse - vemo-Lo por todo o lado, as Suas obras os Seus desejos… Sabe Senhor Artur o Senhor está aqui porque Ele tem uma missão para si….
O Bispo levantou-se e foi buscar um grande livro a uma estante no fundo da sala:
- Neste livro ficarão registados os nomes dos que servem a Deus, gostaria de ter cá o seu nome?
- Mas o que tenho de fazer?
- Trabalhará para a Igreja… Afinal não está aqui por acaso… Agora vá! Providenciarei para que o levem de volta a sua casa. Mais tarde terá notícias minhas. Podemos contar consigo?
- Bem… Se me vão deixar voltar para casa… acho que sim ajudarei no que poder!
- Então vá com Deus Senhor Artur.
O Bispo despediu-se e saiu da sala antes que Artur tivesse tempo de se levantar, à porta o homem baixo e de cara redonda e avermelhada, gritou:
- Vamos Senhor Artur temos um grande caminho a fazer. Ainda hoje vamos voltar para sua casa!
Numa sala contígua o Bispo dizia:
- Ora professor este homem não passa de um imbecil não vale a pena sujarmos mais as mãos a eliminá-lo!
- Crianças… Quem acreditará nas crianças? Murmurou o professor.

20 novembro 2005

A Morte do "Ser Estranho"


O “ser estranho” deixou-se cair, cansado, em frente de Artur.
-Mas que raio de coisa é você?
- Eu posso explicar… sou seu amigo Sr. Artur… preciso que me ajude.
A voz do “ser estranho” era disforme mas perceptível e Artur sentiu que não corria perigo. Pareceu-lhe que aquele ser estava assustado, doente e a precisar de ajuda.
Deu dois passos em frente para poder aperfeiçoar a visão.
- Como sabe o meu nome? O que me quer?
- Apesar de não parecer, eu também sou deste mundo. Disse o “ser estranho”.
Artur estava agora desconfiado mas o “ser estranho” continuou:
- Eu sou uma criação humana, sou um ser humano apenas geneticamente alterado… Entende? Os meus criadores foram destruídos e foi então que me prenderam aqui perto… Agora querem que eu me mostre ao mundo, como se fosse uma criação do divino. Até hoje consegui evitar que isso acontecesse, mas não sei como vai ser se me voltarem a apanhar.
- Não estou a perceber nada do que me diz, retorquiu Artur confuso. E o que tenho eu a ver com isso? Eu nem sei porque estou aqui…
- O seu papel será importante, existem segredos importantes que põem em causa muita coisa e muita gente.
- Não conheço tais segredos.
- Aquela cabra que matou no convento antes de fugir… apenas existem mais duas iguais … tal como eu elas foram geneticamente alteradas, as duas que existem serão colocadas no seu rebanho e são elas que guardarão o segredo.
Artur estava perplexo.
- Mas porquê eu que não aprecio confusões? Não eu não quero saber segredo nenhum! Disse com voz firme. Escolham outro deixem-me fora disto.
Nesse instante as portas do casebre abrem-se de rompante e ouve-se uma foz firme que grita para o interior:
- Os dois quietos! Estamos armados e não queremos magoar ninguém!
Artur levanta as mãos e deixa cair o archote ficando tudo escuro à sua volta. Ao seu lado o “ ser estranho” tenta saltar sobre a sua cabeça para escapar por uma pequena janela a dois metros de altura. Um tiro no escuro quebra o silêncio da noite e Artur vê cair à sua frente o corpo morto e disforme do ser mais aberrante que alguma vez tivera visto.
-Vão-me matar também, pensava Artur de joelhos e com o corpo todo a tremer.
Sentiu uma mão no seu ombro que lhe levantou a cabeça obrigando-o a fitar o tecto.
- Vamos Sr. Artur, o Bispo gostará de o voltar a ver!

16 novembro 2005

O ENCONTRO


O professor era um homem baixo, com uma voz sumida e pouco perceptível, no entanto o seu olhar era penetrante como uma faca afiada pronta a cortar quem se atrevesse desafia-lo ou até contraria-lo.
- Onde está esse ser estranho? Perguntou ao bispo.
- Está preso na masmorra. Podemos ir até lá.
-Vamos então que eu não tenho tempo para desperdiçar.
Desceram vários degraus de pedra numa escada larga em forma de caracol, em frente a uma masmorra dois jovens vestidos como acólitos guardavam as portas com dois bastões rudimentares, ao verem o Bispo e o professor baixaram-se numa vénia e mantiveram-se em silêncio.
-Abram. Ordenou o Bispo.
Um dos jovens rodou uma grande chave metálica e fazendo força com o ombro empurrou a porta fazendo-a rodar sobre as suas velhas dobradiças.
Dentro de uma sala escura, apenas com uma janela situada junto ao tecto a uns bons seis metros de altura que deixava entrar a luz suficiente para se conseguir enxergar o indispensável, uma figura enrolada em posição fetal olhava para a porta e para os dois homens colocados de pé à sua frente.
- Mas que raio! Berrou o professor. Que figura sinistra é essa?
- Foi este o ser que encontramos, disse o bispo, tinha algum material com ele, que lhe confiscamos e que se encontra em nosso poder. Quando foi encontrado por populares nuns terrenos a meia dúzia de quilómetros daqui, toda gente dizia ser um santo, uma aparição divina, sabe como é a mente do povo…. E nós achamos que devemos dar razão ao povo…
- Ele fala?
- Diz umas palavras…., sabe professor nós pedimos-lhe que ele colaborasse connosco, que nos ajudasse a criar um grande milagre com a sua tecnologia mas ele apenas abana a cabeça negando…Sabe como é a Igreja precisa de um milagre…. As pessoas têm-se afastado…
- Compreendo, disse ainda mais baixo o professor; chamou-me aqui porque quer que eu seja conivente com a falsificação de um milagre… O que pretende concretamente Senhor Bispo?
- Bem, nós estava-mos a pensar… talvez com a tecnologia que queremos que o senhor professor veja, simular uma espécie de mensagem divina.
A voz do Bispo estava trémula de medo, respirou fundo e continuou com mais confiança:
- Sabe professor, a nossa Igreja está descapitalizada, noutros tempos dominamos as actividades , a cultura, enfim noutros tempos era a Igreja que pautava o desenvolvimento, sabia-se aquilo que nós queríamos que se soubesse, no entanto nos dias que correm as pessoas perderam o respeito, já não são tementes e precisamos de um milagre.
As palavras do bispo eram agora de emoção, falava como se estivesse a defender a causa de uma vida:
- Noutros países, em Espanha e em França por exemplo, existiram aparições divinas e o que é um facto é que as pessoas voltaram a acreditar… vão em força em peregrinações…
- Entendi. Interrompeu o professor com a sua voz débil. E porque acha que esse milagre seria importante para mim?
O Bispo sorriu.
-Sabe professor, eu sei tão bem como o senhor como é importante para si ter o povo ocupado e sem pensar… além disso dar-lhe à muito prestígio ser o líder de um país onde o divino se manifesta….
O diálogo foi interrompido por um barulho que vinha do “ser estranho” que se encontrava enrolado à sua frente, era um ser de cabeça disforme, oval com dois olhos grandes e uma boca sem dentes, era um pouco mais alto do que o bispo e o resto do corpo era muito parecido com um humano.
De um salto, o “ser estranho”, pulou por cima dos dois homens que gelaram de medo, mais dois saltos e estava na rua em fuga. De nada valeu os dois acólitos a agitarem as mocas e a tentarem ir no seu encalço pois o ser era demasiado rápido.
Apesar de doente e desfalecido o “ser estranho” caminhava pela noite:
- Preciso de ajuda pensava, tenho de conseguir falar com alguém...
Depois de se certificar que ninguém o seguia, o “ser estranho” entrou numa velha casa abandonada, para procurar um sítio macio onde pudesse descansar.
-Quem é você, ouviu-se uma voz.
O “ser estranho” não respondeu.
Pegando numa tocha artesanal, apontou no sentido do vulto e Artur das Cabras, que descansava no local, viu a siulheta do ser mais aberrante que alguma vez imaginara ver!

14 novembro 2005

A Fuga


Artur saltou uma janela e viu-se num pátio amplo. Parecia-lhe um convento antigo. Procurou com o olhar uma referência que lhe pudesse indicar onde se encontrava: Várias colunas de granito e um pequeno jardim bem tratado no centro do largo ocupavam uma dezena de metros até a uma grande porta oval.
Artur seguiu na direcção da porta tentando esconder-se junto à parede. Era uma porta pesada de madeira antiga com duas grandes trancas na horizontal presas a outras duas cavilhas de metal. Artur puxou com força e sentiu o ranger das trancas a cederem ao seu ímpeto. Com o estrondo da madeira a cair no chão, a porta abriu num estalido violento e Artur pode ver o campo aberto à sua frente.
Respirou fundo e correu, correu o mais que pode.
Já longe sem fôlego, ainda lhe perdurava a sensação de que alguém o perseguia e apurando o seu ouvido bem treinado ainda conseguia ouvir o ladrar dos cães no seu encalço.
Tentando ordenar o turbilhão de pensamentos que dilaceravam a sua cabeça, Artur sentou-se na erva verde junto de um pequeno ribeiro e percebeu que tinha perdido a noção do tempo. Não fazia ideia de quanto tempo teria estado preso, nem sequer de que horas seriam naquele momento. Todavia, nessa altura havia outros pensamentos que o preocupavam ainda mais:
Porque o teriam prendido? Teria ele visto alguma coisa que o comprometera? Quem seriam os homens que o prenderam?
Artur levantou-se e continuou cambaleante o seu caminho, não fazia ideia onde pudesse estar apurando o olhar viu a uma dezena de metros abaixo do seu trilho, dois cavalos que pastavam dentro de uma cerca de madeira. Um meio de transporte, pensou.
Aproximou-se lentamente dos equídeos e verificou que não ia ser difícil. Escolheu aquele que lhe pareceu mais manso e de um salto empoleirou-se no dorso do animal.
Artur tinha muita experiência a montar a cavalo e mesmo sem rédeas conseguiu sair dali a galope à procura de alguém que lhe pudesse dizer onde estava.
Chegado a uma estrada maior de terra batida e sulcada por rodados de carroças e ferraduras de animais, com o cavalo a trote viu no alto da montanha um pequeno povoado de casas brancas. Não deve ser longe, pensou. Mais à frente uma placa de pedra indicava com letras disformes o nome do local e Artur sentiu o mundo desabar-lhe em cima:
Bem vindo à Vila de Sintra dizia a placa.


Um automóvel chega ao convento de onde Artur das Cabras acabara de fugir.
-Seja bem-vindo professor, disse o Bispo, as notícias não são animadoras mas tenho a certeza que irão melhorar!