DE PORTAS FECHADAS

[…] nenhum testemunho é suficiente para demonstrar um milagre, a não ser que o testemunho seja de natureza tal que a sua falsidade seja mais milagrosa do que o facto que tenta demonstrar.

26 novembro 2005

O Ripanço


Jeremias saiu de casa da velhota. Tinha voltado à estaca zero. Precisava de uma pista que o levasse a encontrar os animais estranhos que haviam pertencido ao seu tio.
Começava a desesperar e com vontade de voltar para casa:
- Não vim aqui fazer nada – pensava ele enquanto descia um caminho largo de terra batida que ia desembocar num cais fluvial.
Chegado ao rio Jeremias deparou-se com um rapaz, mais ou menos da sua idade que ajoelhado, consertava uma pequena embarcação de madeira.
O rapaz olhou-o de alto a baixo com um martelo numas das mãos como que para se defender de um potencial ataque.
- Bom dia – disse Jeremias com um ar sorridente esforçando-se por parecer amistoso.
- Quem és tu? A voz do rapaz era trémula como que para disfarçar uma gaguez evidente.
- Sou o Jeremias, vinha á procura de uma pessoa, mas já me disseram que morreu!
- Procuras o Tónio Anjinho não é? – Questionou o rapaz.
Jeremias ficou atónito. Como é que este rapaz podia saber quem ele procurava.
- É muito feio ouvir as conversas encostado às portas – ripostou Jeremias tentando verificar se fora desse modo que o rapaz obtivera a informação.
O rapaz deu dois passos na direcção de Jeremias, fazia agora um ar muito mais simpático:
- O meu nome é Ripanço - disse o rapaz. Eu era sobrinho do Tónio Anjinho e o meu tio disse-me antes de morrer que talvez o viessem procurar. Desde altura sempre que aparece alguém de novo por aqui eu fico a pensar que vem à procura dele.
- Mas o teu tio morreu. Certo?
- Certo. – Gaguejou o Ripanço. – Lembro-me como se fosse hoje, apanharam-no, amarraram-no e depois mataram-nos e tentaram fazer-nos acreditar que foi um acidente.
- E sabes quem foi?
-Não! Não sei quem foi. Mas nessa noite segui os assassinos do meu tio. Eles vieram para o matar e para lhe roubarem os dois animais estranhos que te trouxeram também a ti para cá. Não sei que segredos guardavam esses animais mas deve ser algo de muito importante…
- Seguiste-os? E para onde foram?
- Andei a pé durante sete noites. Apenas descansava durante o dia tal como os assassinos. Fiz um mapa do caminho e posso jurar que os animais foram levados para um grande convento perto de Sintra.
- Para um convento? Perguntou Jeremias baralhado?
- Se quiseres levo-te até lá tartamudeou o Ripanço.
A alguns metros dali a velhota, esforçava-se por tentar ouvir a conversa entre os dois rapazes.
- Não os posso deixar ir… murmurou a arcaica mulher.

21 novembro 2005

A Negociação



Artur estava atordoado. Empurrado pela mão forte de um homem baixo e de cara redonda e avermelhada seguia por um caminho escuro. A lua por vezes tapada por farrapos de nuvens dispersas reflectia a luz suficiente para que conseguissem enxergar o trilho. Na cabeça de Artur das Cabras nada fazia sentido. Não sabia porque estava ali a ser empurrado para a presença de um Bispo que o queria ver. Sentia-se emaranhado numa teia de acontecimentos aos quais era completamente alheio mas que por obra do destino o acorrentavam cada vez mais.
Na penumbra da noite conseguia aperceber-se que fazia o mesmo caminho que ainda à pouco tempo fizera na fuga. Não havia dúvidas estava a regressar ao convento onde não fora nada bem tratado.
Desta vez Artur entrava pela porta principal do convento. Atravessaram um grande pátio interior e ficaram de frente a uma parede com três portas iguais. O homem baixo de cara redonda e avermelhada aproximou-se da porta do meio e bateu devagar com a mão.
-Entre! Disse o Bispo no interior.
- Apanhamos o homem mas houve uma baixa!
- Saia daqui! Depois falamos, espero que tenha sido estritamente necessário. O Bispo estava irado.
- Ele ia fugir – disse com a voz sumida o homem baixo de cara redonda e avermelhada.
– Deixe-me falar com o Senhor Artur! Interrompeu o Bispo
Artur ficou de pé, numa sala grande, iluminada por dois grandes candelabros de cristal que evidenciavam o poder eclesiástico. À sua frente o Bispo, ajeitava a sotaina preta e apertava uma grande cinta cor púrpura que condizia com o pequeno chapelete que usava em cima da cabeça.
Artur queria perguntar porque estava ali mas foi interrompido pelo Bispo:
- Sente-se! – Ordenou.
Artur viu uma cadeira de madeira com uma almofada avermelhada e deu dois passos na sua direcção:
- Não! Sente-se aqui ao pé de mim. Não lhe vou fazer mal nem o senhor a mim! – Dizia o Bispo enquanto puxava outra cadeira igual.
- Não sei o que faço aqui! Conseguiu dizer Artur.
- Aposto que tem tido uns dias férteis em situações estranhas…
Artur interrompeu-o e enchendo-se de coragem continuou:
- Olhe Sr. Bispo, eu apenas quero voltar para casa…. Não me interessa nada do que vi e confesso que nada do que vi faz sentido. Se me prendem aqui para que eu não fale podem ficar sossegados pois eu não contarei nada.
- E o que viu? Questionou o Bispo com curiosidade.
Artur estava agora empolgado. Sabia que se fosse inteligente e se contasse o mínimo possível, talvez pudesse voltar para casa.
- Vi uns homens na minha aldeia, parecia um circo, com fumo e com um barulho terrível… Depois só me lembro acordar aqui. Acorrentado. Consegui fugir e enquanto descansava veio ter comigo um ser horrivelmente feio. Parecia-me uma mistura de homem com um animal… esse ser estranho estava quase a morrer mas o homem que me foi buscar tratou de lhe abreviar o caminho… Se é isso que querem que eu não conte eu não contarei, mas deixem-me ir! Eu juro que não conto a ninguém que mataram aquele ser estranho!
- E esse ser falou consigo?
- Não! Tinha acabado de chegar quando apareceu o homem que o matou.
O Bispo pareceu ter ficado aliviado.
- Sabe Senhor Artur, o que viu foi uma obra do demónio. Um ser possuído que tínhamos mesmo de eliminar… o senhor acredita em Deus?
- Creio sim! Respondeu Artur.
O Bispo percebeu que talvez tivesse uma oportunidade de passar Artur das Cabras para o seu lado talvez isso ainda lhe pudesse ser útil.
- Quando fechamos os olhos – disse - vemo-Lo por todo o lado, as Suas obras os Seus desejos… Sabe Senhor Artur o Senhor está aqui porque Ele tem uma missão para si….
O Bispo levantou-se e foi buscar um grande livro a uma estante no fundo da sala:
- Neste livro ficarão registados os nomes dos que servem a Deus, gostaria de ter cá o seu nome?
- Mas o que tenho de fazer?
- Trabalhará para a Igreja… Afinal não está aqui por acaso… Agora vá! Providenciarei para que o levem de volta a sua casa. Mais tarde terá notícias minhas. Podemos contar consigo?
- Bem… Se me vão deixar voltar para casa… acho que sim ajudarei no que poder!
- Então vá com Deus Senhor Artur.
O Bispo despediu-se e saiu da sala antes que Artur tivesse tempo de se levantar, à porta o homem baixo e de cara redonda e avermelhada, gritou:
- Vamos Senhor Artur temos um grande caminho a fazer. Ainda hoje vamos voltar para sua casa!
Numa sala contígua o Bispo dizia:
- Ora professor este homem não passa de um imbecil não vale a pena sujarmos mais as mãos a eliminá-lo!
- Crianças… Quem acreditará nas crianças? Murmurou o professor.

20 novembro 2005

A Morte do "Ser Estranho"


O “ser estranho” deixou-se cair, cansado, em frente de Artur.
-Mas que raio de coisa é você?
- Eu posso explicar… sou seu amigo Sr. Artur… preciso que me ajude.
A voz do “ser estranho” era disforme mas perceptível e Artur sentiu que não corria perigo. Pareceu-lhe que aquele ser estava assustado, doente e a precisar de ajuda.
Deu dois passos em frente para poder aperfeiçoar a visão.
- Como sabe o meu nome? O que me quer?
- Apesar de não parecer, eu também sou deste mundo. Disse o “ser estranho”.
Artur estava agora desconfiado mas o “ser estranho” continuou:
- Eu sou uma criação humana, sou um ser humano apenas geneticamente alterado… Entende? Os meus criadores foram destruídos e foi então que me prenderam aqui perto… Agora querem que eu me mostre ao mundo, como se fosse uma criação do divino. Até hoje consegui evitar que isso acontecesse, mas não sei como vai ser se me voltarem a apanhar.
- Não estou a perceber nada do que me diz, retorquiu Artur confuso. E o que tenho eu a ver com isso? Eu nem sei porque estou aqui…
- O seu papel será importante, existem segredos importantes que põem em causa muita coisa e muita gente.
- Não conheço tais segredos.
- Aquela cabra que matou no convento antes de fugir… apenas existem mais duas iguais … tal como eu elas foram geneticamente alteradas, as duas que existem serão colocadas no seu rebanho e são elas que guardarão o segredo.
Artur estava perplexo.
- Mas porquê eu que não aprecio confusões? Não eu não quero saber segredo nenhum! Disse com voz firme. Escolham outro deixem-me fora disto.
Nesse instante as portas do casebre abrem-se de rompante e ouve-se uma foz firme que grita para o interior:
- Os dois quietos! Estamos armados e não queremos magoar ninguém!
Artur levanta as mãos e deixa cair o archote ficando tudo escuro à sua volta. Ao seu lado o “ ser estranho” tenta saltar sobre a sua cabeça para escapar por uma pequena janela a dois metros de altura. Um tiro no escuro quebra o silêncio da noite e Artur vê cair à sua frente o corpo morto e disforme do ser mais aberrante que alguma vez tivera visto.
-Vão-me matar também, pensava Artur de joelhos e com o corpo todo a tremer.
Sentiu uma mão no seu ombro que lhe levantou a cabeça obrigando-o a fitar o tecto.
- Vamos Sr. Artur, o Bispo gostará de o voltar a ver!

16 novembro 2005

O ENCONTRO


O professor era um homem baixo, com uma voz sumida e pouco perceptível, no entanto o seu olhar era penetrante como uma faca afiada pronta a cortar quem se atrevesse desafia-lo ou até contraria-lo.
- Onde está esse ser estranho? Perguntou ao bispo.
- Está preso na masmorra. Podemos ir até lá.
-Vamos então que eu não tenho tempo para desperdiçar.
Desceram vários degraus de pedra numa escada larga em forma de caracol, em frente a uma masmorra dois jovens vestidos como acólitos guardavam as portas com dois bastões rudimentares, ao verem o Bispo e o professor baixaram-se numa vénia e mantiveram-se em silêncio.
-Abram. Ordenou o Bispo.
Um dos jovens rodou uma grande chave metálica e fazendo força com o ombro empurrou a porta fazendo-a rodar sobre as suas velhas dobradiças.
Dentro de uma sala escura, apenas com uma janela situada junto ao tecto a uns bons seis metros de altura que deixava entrar a luz suficiente para se conseguir enxergar o indispensável, uma figura enrolada em posição fetal olhava para a porta e para os dois homens colocados de pé à sua frente.
- Mas que raio! Berrou o professor. Que figura sinistra é essa?
- Foi este o ser que encontramos, disse o bispo, tinha algum material com ele, que lhe confiscamos e que se encontra em nosso poder. Quando foi encontrado por populares nuns terrenos a meia dúzia de quilómetros daqui, toda gente dizia ser um santo, uma aparição divina, sabe como é a mente do povo…. E nós achamos que devemos dar razão ao povo…
- Ele fala?
- Diz umas palavras…., sabe professor nós pedimos-lhe que ele colaborasse connosco, que nos ajudasse a criar um grande milagre com a sua tecnologia mas ele apenas abana a cabeça negando…Sabe como é a Igreja precisa de um milagre…. As pessoas têm-se afastado…
- Compreendo, disse ainda mais baixo o professor; chamou-me aqui porque quer que eu seja conivente com a falsificação de um milagre… O que pretende concretamente Senhor Bispo?
- Bem, nós estava-mos a pensar… talvez com a tecnologia que queremos que o senhor professor veja, simular uma espécie de mensagem divina.
A voz do Bispo estava trémula de medo, respirou fundo e continuou com mais confiança:
- Sabe professor, a nossa Igreja está descapitalizada, noutros tempos dominamos as actividades , a cultura, enfim noutros tempos era a Igreja que pautava o desenvolvimento, sabia-se aquilo que nós queríamos que se soubesse, no entanto nos dias que correm as pessoas perderam o respeito, já não são tementes e precisamos de um milagre.
As palavras do bispo eram agora de emoção, falava como se estivesse a defender a causa de uma vida:
- Noutros países, em Espanha e em França por exemplo, existiram aparições divinas e o que é um facto é que as pessoas voltaram a acreditar… vão em força em peregrinações…
- Entendi. Interrompeu o professor com a sua voz débil. E porque acha que esse milagre seria importante para mim?
O Bispo sorriu.
-Sabe professor, eu sei tão bem como o senhor como é importante para si ter o povo ocupado e sem pensar… além disso dar-lhe à muito prestígio ser o líder de um país onde o divino se manifesta….
O diálogo foi interrompido por um barulho que vinha do “ser estranho” que se encontrava enrolado à sua frente, era um ser de cabeça disforme, oval com dois olhos grandes e uma boca sem dentes, era um pouco mais alto do que o bispo e o resto do corpo era muito parecido com um humano.
De um salto, o “ser estranho”, pulou por cima dos dois homens que gelaram de medo, mais dois saltos e estava na rua em fuga. De nada valeu os dois acólitos a agitarem as mocas e a tentarem ir no seu encalço pois o ser era demasiado rápido.
Apesar de doente e desfalecido o “ser estranho” caminhava pela noite:
- Preciso de ajuda pensava, tenho de conseguir falar com alguém...
Depois de se certificar que ninguém o seguia, o “ser estranho” entrou numa velha casa abandonada, para procurar um sítio macio onde pudesse descansar.
-Quem é você, ouviu-se uma voz.
O “ser estranho” não respondeu.
Pegando numa tocha artesanal, apontou no sentido do vulto e Artur das Cabras, que descansava no local, viu a siulheta do ser mais aberrante que alguma vez imaginara ver!

14 novembro 2005

A Fuga


Artur saltou uma janela e viu-se num pátio amplo. Parecia-lhe um convento antigo. Procurou com o olhar uma referência que lhe pudesse indicar onde se encontrava: Várias colunas de granito e um pequeno jardim bem tratado no centro do largo ocupavam uma dezena de metros até a uma grande porta oval.
Artur seguiu na direcção da porta tentando esconder-se junto à parede. Era uma porta pesada de madeira antiga com duas grandes trancas na horizontal presas a outras duas cavilhas de metal. Artur puxou com força e sentiu o ranger das trancas a cederem ao seu ímpeto. Com o estrondo da madeira a cair no chão, a porta abriu num estalido violento e Artur pode ver o campo aberto à sua frente.
Respirou fundo e correu, correu o mais que pode.
Já longe sem fôlego, ainda lhe perdurava a sensação de que alguém o perseguia e apurando o seu ouvido bem treinado ainda conseguia ouvir o ladrar dos cães no seu encalço.
Tentando ordenar o turbilhão de pensamentos que dilaceravam a sua cabeça, Artur sentou-se na erva verde junto de um pequeno ribeiro e percebeu que tinha perdido a noção do tempo. Não fazia ideia de quanto tempo teria estado preso, nem sequer de que horas seriam naquele momento. Todavia, nessa altura havia outros pensamentos que o preocupavam ainda mais:
Porque o teriam prendido? Teria ele visto alguma coisa que o comprometera? Quem seriam os homens que o prenderam?
Artur levantou-se e continuou cambaleante o seu caminho, não fazia ideia onde pudesse estar apurando o olhar viu a uma dezena de metros abaixo do seu trilho, dois cavalos que pastavam dentro de uma cerca de madeira. Um meio de transporte, pensou.
Aproximou-se lentamente dos equídeos e verificou que não ia ser difícil. Escolheu aquele que lhe pareceu mais manso e de um salto empoleirou-se no dorso do animal.
Artur tinha muita experiência a montar a cavalo e mesmo sem rédeas conseguiu sair dali a galope à procura de alguém que lhe pudesse dizer onde estava.
Chegado a uma estrada maior de terra batida e sulcada por rodados de carroças e ferraduras de animais, com o cavalo a trote viu no alto da montanha um pequeno povoado de casas brancas. Não deve ser longe, pensou. Mais à frente uma placa de pedra indicava com letras disformes o nome do local e Artur sentiu o mundo desabar-lhe em cima:
Bem vindo à Vila de Sintra dizia a placa.


Um automóvel chega ao convento de onde Artur das Cabras acabara de fugir.
-Seja bem-vindo professor, disse o Bispo, as notícias não são animadoras mas tenho a certeza que irão melhorar!

12 novembro 2005

A 1ª Viagem de Jeremias


Mesmo sem um centavo no bolso, Jeremias estava decidido iria procurar os animais que tinham pertencido ao seu tio.
A única indicação que tinha no livro era que se tratavam de animais diferentes que dariam muito dinheiro ao seu dono e que o seu tio antes de morrer os tinha deixado com um tal de Tónio Anjinho.
O primeiro passo seria encontrar Tónio Anjinho e a indicação que tinha não dificultava nada a tarefa claramente o manual dizia:
“ Os dois últimos bizarros animais entreguei-os a um homem são, no entanto não duvido que mais dia menos dia seja evadido pela loucura, tal como me aconteceu a mim. O mundo tem de me agradecer pois fui eu que o salvei da mais temível invasão de sempre. Fui eu quem descobriu a forma de aniquilar e matar estas criaturas ultrajantes. Apenas sobraram duas… mas incapacitei-as e não são mais do que duas peças de museu para a humanidade poder ver do que se livrou. Tónio Anjinho vive no monte, junto à Clareira Velha…”
Jeremias sabia muito bem onde era a Clareira Velha, não demoraria mais de dois dias e duas noites a chegar lá. Reuniu os seus haveres, um canivete, uma corda, dois pães um cantil com vinho e pouco mais. Saiu decidido, a noite aliviava-lhe o fôlego, mas começava a sentir o esmagador peso da responsabilidade em descobrir um dos mais misteriosos segredos de sempre, depois de dois dias a andar já com fome e sede avistou o vale onde já fora uma vez na sua infância.
- É aqui, lembro-me bem!
Encostou-se ao cajado e ficou a olhar, á espera de algum sinal ou indicação que lhe pudesse dizer onde poderia encontrar Tónio Anjinho.
Uns metros mais abaixo Jeremias viu um casebre de onde saia fumo pelo telhado, aproximou-se com esperança de encontrar alguém que lhe pudesse indicar onde encontrar quem procurava.
- Está aqui alguém?
Gritou para dentro de casa.
Uma velha com ar esgazeado assomou á porta e com uma careta perguntou?
- Quem és tu menino? O que queres a esta hora? O que andas a fazer?
Jeremias não demorou a aperceber-se da loucura da velhota e questionou-se se deveria ou não dizer ao que vinha, a velha continuava
- O que queres? Vá lá, diz lá menino? Aqui não entras, diz lá o que queres! E ria cheia de vontade a velhota…
- Procuro o Tónio Anjinho…
A anil mulher especou-se de repente… os seus olhos avermelharam e Jeremias viu que não fora boa ideia a pergunta.
- O que disseste?
- Procuro o Tonio Anjinho, era amigo do meu tio e …
A porta fechou-se à sua frente, e a velha desapareceu dentro de casa. Talvez ela não dê com o Anjinho pensou.
Jeremias ia continuar a descer em direcção ao vale quando a voz da velhota o chamou atrás de si:
_ Menino, anda cá!
A velhota levou-o para dentro de casa e perguntou-lhe em voz baixa como se pudessem estar a se espiados por alguém:
- O que querias ao tónio Anjinho?
Jeremias não pretendia partilhar o seu segredo, nem dizer que descobrira o livro, nem nada disso e limitou-se a responder:
_ O meu tio Artur das Cabras antes de morrer disse-me que deixaria algum gado com ele e por isso vinha busca-lo pois pertence-me por herança.
- E ele disse-te que tipo de gado era?
- Cabras. Era o gado que ele tinha não? Perguntou Jeremias fingindo-se o mais natural possível.
- Não, Não era. Ele tinha dois animais estranhos. Não eram de carne percebes?
- Não eram de carne?
- Não, eram de uma espécie de metal e tinham uma coisa que mais nenhum animal tem…
- O quê perguntou Jeremias.
- Falavam!
Jeremias ficou atordoado, cabras de metal e que falavam…não havia dúvida que a velhota era mesmo lunática.
-Estou a ver disse ele à velha numa tentativa de abreviar a conversa para sair dali, mas diga-me então onde poderei encontrar o Tónio Anjinho para ver esses tais animais.
- Morreu! Disse secamente. Mataram-no, vieram de noite, secretamente, levaram as duas cabras e fingiram um desastre de carroça para a morte parecer um acidente. Mas eu vi e lembro-me como se fosse hoje, dois jovens e um homem baixo de cara redonda e avermelhada a arrastarem o desgraçado no dia seguinte apareceu morto debaixo da carroça e o gado tinha desaparecido.
- Mataram-no?? Tal como ao meu tio.
Jeremias tinha agora uma certeza, havia algo de estranho nesta história, ainda que ele não acreditasse em cabras metálicas e que falavam, uma coisa era certa, o seu tio descobrira um segredo e havia alguém muito interessado em mantê-lo bem guardado.

A Descoberta


- Não são extra terrestres mas sim Deus que se quer mostrar! Disse o Bispo a um homem baixo de cara redonda e avermelhada.
- Mas que raio, será que cabe na cabeça de alguém que seres de outro mundo estejam a evadir o planeta? Insistia o Bispo cada vez mais alterado.
- Mas várias pessoas viram, asseguram que uma cabra falou com eles e em bom português, disse o homem baixo de cara redonda e avermelhada.
- É ridículo, combinamos que iríamos aproveitar este boato e vamos faze-lo! Custe o que custar!
- Ainda não lhe disse, senhor, mas o plano falhou! O pastor que queríamos transformar em visionário apanhou-nos a testar o equipamento. Tivemos que o deter.
O Bispo olhou-o de alto a baixo:
- Pensei que eram profissionais, afinal não passam de imbecis. E agora o que pensam fazer com ele?
- Ainda não sabemos, mas não o podemos deixar ir por aí a contar o que viu, isso seria o nosso fim.
- Façam o que têm a fazer disse o Bispo, e preparem um outro lugar com novas personagens, temos um plano a cumprir, o Sr. Professor não há-de gostar de saber que contratou um grupo de incompetentes.
- Começaremos a tratar disso hoje, disse o homem baixo de cara redonda e avermelhada


Três pisos abaixo, numa cave onde pipas de vinho se amontoavam fazendo lembrar uma adega medieval Artur das Cabras estava amarrado a um poste de madeira. A boca tapada com um grande lenço vermelho impedia-lhe uma respiração normal. Uma cabra roía as cordas que lhe amarravam os pés e depois as mãos, quando as cordas por fim cederam Artur caiu no chão atordoado. Destapou a boca e ficou vidrado a olhar o caprino que o tinham libertado. O animal parecia possuído e Artur não estava a gostar do que via. Antes que fosse surpreendido agarrou num cajado pousado no chão e atacou a cabra. Artur desferiu um duro golpe atingindo a chibarra na cabeça deixando-a estendida. Morta.
- Não pode ser, bramiu Artur.
O som da pancada parecera-lhe um som metálico, como se tivesse batido num gongo. Branco como a cal debruçou-se sobre o animal e viu um ser que nunca pensara existir:
Uma cabra metaliforme, era um animal igual a todos os outros que Artur tão bem conhecia só que o seu interior era metálico. O dia estava a ser franco em surpresas para Artur das Cabras, mas a maior surpresa ainda estava por horas.

10 novembro 2005

A Aparição


Artur das cabras era ainda um jovem, apascentava o seu pequeno rebanho, quando por volta do meio dia, viu uma luz brilhante; julgando ser um relâmpago pensou em abandonar o local, mas logo á frente outro clarão iluminou o vale.
- Mas que raio! Não há nuvens! Exclamou.
Foi então que decifrou no meio de um arvoredo algo que nunca tinha visto, uma espécie de projecção desfocada tentava dar ideia de uma senhora vestida de branco, enquanto ao lado um aparelho metálico debitava sons estranhos e outro aparelho enchia de fumo todo aquele espaço, viu depois um homem baixo de cara redonda e avermelhada que rodopiava endiabrado, aos berros com dois pequenos miúdos:
- Vejam o que fizeram! Deitaram tudo a perder! Sabem quantos contos de reis estão investidos neste material? Que vai dizer o chefe?...
Artur não estava a perceber o que fazia ali todo aquele aparato, aproximou-se mais na tentativa de ouvir e ver melhor:
- Também…. Quem ia acreditar num pastor com ar de louco? Disse um dos jovens.

Esta foi a última frase que Artur ouviu nesse dia, uma forte pancada na nuca projectou-o uns bons dez metros para a frente, os dois jovens carregaram o corpo desmaiado de Artur para uma carroça.
- Este pastor viu demasiadas coisas, disse o homem baixo de cara redonda e avermelhada, - Vamos leva-lo ao chefe…
A uma dezena de metros dali uma cabra atrás de um arbusto tentava perceber o que se passava enquanto o seu cérebro arquitectava uma forma de resgatar o Pastor. Era dia 13 de Abril de 1917.

09 novembro 2005

Jeremias - A 1ª Descoberta


O frio da rua que entrava pelos buracos da casa gelava completamente Jeremias que estava petrificado a olhar um grande livro que mais parecia um álbum de fotografias antigo. O cheiro que emanava da lareira a cinza apagada criava um ambiente tenso, fantasmagórico.... Umas grandes capas de cabedal antigo acoitavam dezenas de folhas manuscritas, alguns desenhos e caricaturas reiteravam o conteúdo os textos escritos à umas boas dezenas de anos. Jeremias não tinha dúvidas e daí a sua lividez... estava diante do manual que qualquer pastor poderia desejar encontrar, a verdadeira bíblia da sua classe; Jeremias sabia que a partir desta noite a sua vida nunca mais seria a mesma. De joelhos começou a desfolhar o compêndio e os seus olhos brilharam como nunca, estava tudo ali, afinal os boatos que tinha herdado dos seus antepassados eram verdadeiros.
Ainda que a maior parte das coisas estivesse escrita em código que jeremias não sabia decifrar, o livro era belo.
Artur das Cabras - O mito, tinha mesmo existido e tinha mesmo escrito o Grande Livro....
Jeremias debruçou-se e começou a ler um dos capitulos descodificados:
" - Há muito tempo, num tempo perdido pela memória da humanidade, que os homens e mulheres se maravilharam com a misteriosa chuva, o sol e a lua, as estrelas com seu perfeito firmamento, com a água e o fogo. E foi através dessa fascinação pela natureza, que os nossos antepassados de todas as partes do mundo, começaram a atribuir aos seus deuses, mitos e lendas estes factos... no entanto à medida que a ciência desvenda tais factos os deuses e as religiões vão perdendo credibilidade e vão alterando as suas verdades inquestionáveis por pequenas verdades e por fim por grandes mentiras...."
- Será que é mesmo verdade? Perguntou-se Jeremias.
- Se bem me lembro diziam os antigos que Artur falou com Extra Terrestres e que estes se transformaram em cabras e que lhe desvendaram todo o mistério em torno da Humanidade.
Ao vira a página Jeremias sucumbiu de incrédulo, de joelhos tal pastorinho a ver a Senhora a pousar numa azinheira, arrastou-se até à parede.
- As Cabras, disse, tenho de reaver as Cabras que eram do meu tio...
Mal sabia Jeremias que as cabras que ele ia procurar estavam presas numa velha Basílica conhecida...

06 novembro 2005

Capitulo I– Como surgiu a ideia de escrever o grande livro das Cabras


Artur das Cabras (na foto) possuía uma capacidade para adivinhar, embora como a maior parte das pessoas com dotes especiais desconhecesse o facto até um dia… Para Artur das Cabras, este momento ocorreu na Quinta do Costa, numa manhã de sol dos anos 10. A sua fonte de inspiração foi um casal de Cabras que pastava num campo verde.
Ao olhar os caprinos, cintilantes na sua condição irracional Artur murmurou para si:
- O obstáculo mais sério que impede a minha chegada à límpida verdade é querer ter e dominar a situação ou por nas mãos de outro ser humano, no qual "tenho muita fé" para que esta situação seja resolvida.
- Por acaso essa minha técnica de ultrapassar Deus é eficaz?
- Evidentemente que não! - Respondeu a si próprio
- Se eu observar as situações nas quais, hipoteticamente, o mundo civilizado vive fisica e espiritualmente verifico uma lixeira, cuidadosamente cromada, brilhando muito e que me tem conseguido ainda assim atrair…. Ainda que seja uma lixeira….
Não havia dúvidas Artur estava louco havia já muito tempo.

Artur das Cabras decidira ali escrever um livro, um livro que divulgasse toda a sua experiência, todas as suas fugas e acima de tudo que contasse as suas inacreditáveis aventuras. Toda a gente o olhava como se ele fosse um louco desvairado que dizia ter visto extraterrestres e que tinha falado com cabras vindas do espaço. Ainda que ninguem acreditasse no seu livro pelo menos este serviria de arcaboiço aos seus mais ou menos cem anos de hipotética "iluminação" científica, psicológica e espiritual. Um livro que a nova inquisição trataria de desacreditar...
- O mundo seguiu como uma cabra cega Sigmund Freud e ignorou Carl Jung; pensou Artur das Cabras.
- Freud justificava qualquer desajuste sexual como sendo o resultado normal de algum trauma. Paralelamente a mensagem era a seguinte: "Assim te fizeram (feriram espiritualmente) e Deus permitiu-o; portanto Deus está de acordo que vivas e ajas de acordo com o resultado de essa ferida espiritual".
Por seu lado Carl Jung reconhecia essas feridas e a sua obra estava centrada na cura, sem se importar com as suas purulentas consequências.
A diferença das perspectivas era básica. Sigmund Freud era ateu. Carl Jung, por outro lado, tinha uma filosofía espiritual muito diferente.
Mas isso não interessava a Artur das Cabras, depois de ter visto e vivido um conjunto de situações que deixaria louco o comum dos mortais, Artur não fora uma exepção e já no final dos seus dias, antes de ser brutalmente assassinado perguntaram-lhe: - "Acredita em Deus?" A pergunta baralhou Artur das Cabras: "Não, eu não acredito em Deus... eu conheço Deus!"
Para Artur das Cabras já não era uma questão de fé, era simplesmente uma realidade. Naturalmente, os resultados da sua experiência de vida foram verdadeiramente iluminados. No mundo, se essa sua experiência de vida for dada a conhecer como o foram os trabalhos de Freud, Artur tem uma certeza: Sairemos da aberrante orgia carnal na qual o mundo actual está submerso e cairá por terra todo um conjunto de verdades inquestionáveis.
- Tudo vai ser posto à prova, murmurou.
Artur estava decidido iria escrever o GRANDE LIVRO DAS CABRAS

05 novembro 2005

Jeremias e o grande livro das cabras



Era uma noite de Inverno, Jeremias não tinha nada para fazer a não ser ter frio. Tinha-se mudado recentemente para uma casa, aliás um barraco, com uma cozinha, um quarto e alguns buracos por onde o vento soprava azoando a sua cabeça. Era a casa de um tio afastado, (o ti Artur das Cabras) que tinha sido assassinado por desconhecidos. Era louco e tinha deixado além da casa, uma filha alucinada que estava a viver com os pais do Jeremias. Nessa noite Jeremias não tinha sono, tinha frio, muito frio, mas não tinha sono... Levantou-se trémulo na tentativa de encontrar por entre o lixo nos buracos alguma coisa que pudesse arder na velha lareira suja, quando a sua mão encontra algo duro, como se fosse um embrulho... - Um Livro!! Que raio faz aqui um livro - disse em voz alta puxando-o para si com as duas mãos ; - Será que arde?? Ficou perplexo, a olhar uma capa dura, antiga, e viu à luz ténue da noite, gravado a letras douradas garrafais o título mais estranho que alguma vez esperara ver naquela noite: - O Grande Livro das Cabras Mal sabia Jeremias o que este livro iria mudar na sua vida....