DE PORTAS FECHADAS

[…] nenhum testemunho é suficiente para demonstrar um milagre, a não ser que o testemunho seja de natureza tal que a sua falsidade seja mais milagrosa do que o facto que tenta demonstrar.

14 novembro 2005

A Fuga


Artur saltou uma janela e viu-se num pátio amplo. Parecia-lhe um convento antigo. Procurou com o olhar uma referência que lhe pudesse indicar onde se encontrava: Várias colunas de granito e um pequeno jardim bem tratado no centro do largo ocupavam uma dezena de metros até a uma grande porta oval.
Artur seguiu na direcção da porta tentando esconder-se junto à parede. Era uma porta pesada de madeira antiga com duas grandes trancas na horizontal presas a outras duas cavilhas de metal. Artur puxou com força e sentiu o ranger das trancas a cederem ao seu ímpeto. Com o estrondo da madeira a cair no chão, a porta abriu num estalido violento e Artur pode ver o campo aberto à sua frente.
Respirou fundo e correu, correu o mais que pode.
Já longe sem fôlego, ainda lhe perdurava a sensação de que alguém o perseguia e apurando o seu ouvido bem treinado ainda conseguia ouvir o ladrar dos cães no seu encalço.
Tentando ordenar o turbilhão de pensamentos que dilaceravam a sua cabeça, Artur sentou-se na erva verde junto de um pequeno ribeiro e percebeu que tinha perdido a noção do tempo. Não fazia ideia de quanto tempo teria estado preso, nem sequer de que horas seriam naquele momento. Todavia, nessa altura havia outros pensamentos que o preocupavam ainda mais:
Porque o teriam prendido? Teria ele visto alguma coisa que o comprometera? Quem seriam os homens que o prenderam?
Artur levantou-se e continuou cambaleante o seu caminho, não fazia ideia onde pudesse estar apurando o olhar viu a uma dezena de metros abaixo do seu trilho, dois cavalos que pastavam dentro de uma cerca de madeira. Um meio de transporte, pensou.
Aproximou-se lentamente dos equídeos e verificou que não ia ser difícil. Escolheu aquele que lhe pareceu mais manso e de um salto empoleirou-se no dorso do animal.
Artur tinha muita experiência a montar a cavalo e mesmo sem rédeas conseguiu sair dali a galope à procura de alguém que lhe pudesse dizer onde estava.
Chegado a uma estrada maior de terra batida e sulcada por rodados de carroças e ferraduras de animais, com o cavalo a trote viu no alto da montanha um pequeno povoado de casas brancas. Não deve ser longe, pensou. Mais à frente uma placa de pedra indicava com letras disformes o nome do local e Artur sentiu o mundo desabar-lhe em cima:
Bem vindo à Vila de Sintra dizia a placa.


Um automóvel chega ao convento de onde Artur das Cabras acabara de fugir.
-Seja bem-vindo professor, disse o Bispo, as notícias não são animadoras mas tenho a certeza que irão melhorar!

2 Comments:

At 14 novembro, 2005 22:54, Blogger north said...

Isto está a ficar interessante!

 
At 14 novembro, 2005 23:55, Blogger JL said...

Está, está :-)
Um curso de "Falar em Público" dá para muita coisa. Oh se dá :-)

 

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