DE PORTAS FECHADAS

[…] nenhum testemunho é suficiente para demonstrar um milagre, a não ser que o testemunho seja de natureza tal que a sua falsidade seja mais milagrosa do que o facto que tenta demonstrar.

20 novembro 2005

A Morte do "Ser Estranho"


O “ser estranho” deixou-se cair, cansado, em frente de Artur.
-Mas que raio de coisa é você?
- Eu posso explicar… sou seu amigo Sr. Artur… preciso que me ajude.
A voz do “ser estranho” era disforme mas perceptível e Artur sentiu que não corria perigo. Pareceu-lhe que aquele ser estava assustado, doente e a precisar de ajuda.
Deu dois passos em frente para poder aperfeiçoar a visão.
- Como sabe o meu nome? O que me quer?
- Apesar de não parecer, eu também sou deste mundo. Disse o “ser estranho”.
Artur estava agora desconfiado mas o “ser estranho” continuou:
- Eu sou uma criação humana, sou um ser humano apenas geneticamente alterado… Entende? Os meus criadores foram destruídos e foi então que me prenderam aqui perto… Agora querem que eu me mostre ao mundo, como se fosse uma criação do divino. Até hoje consegui evitar que isso acontecesse, mas não sei como vai ser se me voltarem a apanhar.
- Não estou a perceber nada do que me diz, retorquiu Artur confuso. E o que tenho eu a ver com isso? Eu nem sei porque estou aqui…
- O seu papel será importante, existem segredos importantes que põem em causa muita coisa e muita gente.
- Não conheço tais segredos.
- Aquela cabra que matou no convento antes de fugir… apenas existem mais duas iguais … tal como eu elas foram geneticamente alteradas, as duas que existem serão colocadas no seu rebanho e são elas que guardarão o segredo.
Artur estava perplexo.
- Mas porquê eu que não aprecio confusões? Não eu não quero saber segredo nenhum! Disse com voz firme. Escolham outro deixem-me fora disto.
Nesse instante as portas do casebre abrem-se de rompante e ouve-se uma foz firme que grita para o interior:
- Os dois quietos! Estamos armados e não queremos magoar ninguém!
Artur levanta as mãos e deixa cair o archote ficando tudo escuro à sua volta. Ao seu lado o “ ser estranho” tenta saltar sobre a sua cabeça para escapar por uma pequena janela a dois metros de altura. Um tiro no escuro quebra o silêncio da noite e Artur vê cair à sua frente o corpo morto e disforme do ser mais aberrante que alguma vez tivera visto.
-Vão-me matar também, pensava Artur de joelhos e com o corpo todo a tremer.
Sentiu uma mão no seu ombro que lhe levantou a cabeça obrigando-o a fitar o tecto.
- Vamos Sr. Artur, o Bispo gostará de o voltar a ver!