DE PORTAS FECHADAS

[…] nenhum testemunho é suficiente para demonstrar um milagre, a não ser que o testemunho seja de natureza tal que a sua falsidade seja mais milagrosa do que o facto que tenta demonstrar.

21 novembro 2005

A Negociação



Artur estava atordoado. Empurrado pela mão forte de um homem baixo e de cara redonda e avermelhada seguia por um caminho escuro. A lua por vezes tapada por farrapos de nuvens dispersas reflectia a luz suficiente para que conseguissem enxergar o trilho. Na cabeça de Artur das Cabras nada fazia sentido. Não sabia porque estava ali a ser empurrado para a presença de um Bispo que o queria ver. Sentia-se emaranhado numa teia de acontecimentos aos quais era completamente alheio mas que por obra do destino o acorrentavam cada vez mais.
Na penumbra da noite conseguia aperceber-se que fazia o mesmo caminho que ainda à pouco tempo fizera na fuga. Não havia dúvidas estava a regressar ao convento onde não fora nada bem tratado.
Desta vez Artur entrava pela porta principal do convento. Atravessaram um grande pátio interior e ficaram de frente a uma parede com três portas iguais. O homem baixo de cara redonda e avermelhada aproximou-se da porta do meio e bateu devagar com a mão.
-Entre! Disse o Bispo no interior.
- Apanhamos o homem mas houve uma baixa!
- Saia daqui! Depois falamos, espero que tenha sido estritamente necessário. O Bispo estava irado.
- Ele ia fugir – disse com a voz sumida o homem baixo de cara redonda e avermelhada.
– Deixe-me falar com o Senhor Artur! Interrompeu o Bispo
Artur ficou de pé, numa sala grande, iluminada por dois grandes candelabros de cristal que evidenciavam o poder eclesiástico. À sua frente o Bispo, ajeitava a sotaina preta e apertava uma grande cinta cor púrpura que condizia com o pequeno chapelete que usava em cima da cabeça.
Artur queria perguntar porque estava ali mas foi interrompido pelo Bispo:
- Sente-se! – Ordenou.
Artur viu uma cadeira de madeira com uma almofada avermelhada e deu dois passos na sua direcção:
- Não! Sente-se aqui ao pé de mim. Não lhe vou fazer mal nem o senhor a mim! – Dizia o Bispo enquanto puxava outra cadeira igual.
- Não sei o que faço aqui! Conseguiu dizer Artur.
- Aposto que tem tido uns dias férteis em situações estranhas…
Artur interrompeu-o e enchendo-se de coragem continuou:
- Olhe Sr. Bispo, eu apenas quero voltar para casa…. Não me interessa nada do que vi e confesso que nada do que vi faz sentido. Se me prendem aqui para que eu não fale podem ficar sossegados pois eu não contarei nada.
- E o que viu? Questionou o Bispo com curiosidade.
Artur estava agora empolgado. Sabia que se fosse inteligente e se contasse o mínimo possível, talvez pudesse voltar para casa.
- Vi uns homens na minha aldeia, parecia um circo, com fumo e com um barulho terrível… Depois só me lembro acordar aqui. Acorrentado. Consegui fugir e enquanto descansava veio ter comigo um ser horrivelmente feio. Parecia-me uma mistura de homem com um animal… esse ser estranho estava quase a morrer mas o homem que me foi buscar tratou de lhe abreviar o caminho… Se é isso que querem que eu não conte eu não contarei, mas deixem-me ir! Eu juro que não conto a ninguém que mataram aquele ser estranho!
- E esse ser falou consigo?
- Não! Tinha acabado de chegar quando apareceu o homem que o matou.
O Bispo pareceu ter ficado aliviado.
- Sabe Senhor Artur, o que viu foi uma obra do demónio. Um ser possuído que tínhamos mesmo de eliminar… o senhor acredita em Deus?
- Creio sim! Respondeu Artur.
O Bispo percebeu que talvez tivesse uma oportunidade de passar Artur das Cabras para o seu lado talvez isso ainda lhe pudesse ser útil.
- Quando fechamos os olhos – disse - vemo-Lo por todo o lado, as Suas obras os Seus desejos… Sabe Senhor Artur o Senhor está aqui porque Ele tem uma missão para si….
O Bispo levantou-se e foi buscar um grande livro a uma estante no fundo da sala:
- Neste livro ficarão registados os nomes dos que servem a Deus, gostaria de ter cá o seu nome?
- Mas o que tenho de fazer?
- Trabalhará para a Igreja… Afinal não está aqui por acaso… Agora vá! Providenciarei para que o levem de volta a sua casa. Mais tarde terá notícias minhas. Podemos contar consigo?
- Bem… Se me vão deixar voltar para casa… acho que sim ajudarei no que poder!
- Então vá com Deus Senhor Artur.
O Bispo despediu-se e saiu da sala antes que Artur tivesse tempo de se levantar, à porta o homem baixo e de cara redonda e avermelhada, gritou:
- Vamos Senhor Artur temos um grande caminho a fazer. Ainda hoje vamos voltar para sua casa!
Numa sala contígua o Bispo dizia:
- Ora professor este homem não passa de um imbecil não vale a pena sujarmos mais as mãos a eliminá-lo!
- Crianças… Quem acreditará nas crianças? Murmurou o professor.

2 Comments:

At 22 novembro, 2005 14:42, Blogger Sei Bem said...

Pois muito bem....

 
At 24 novembro, 2005 23:24, Blogger GreenSky said...

Quero mais...

 

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