DE PORTAS FECHADAS

[…] nenhum testemunho é suficiente para demonstrar um milagre, a não ser que o testemunho seja de natureza tal que a sua falsidade seja mais milagrosa do que o facto que tenta demonstrar.

16 novembro 2005

O ENCONTRO


O professor era um homem baixo, com uma voz sumida e pouco perceptível, no entanto o seu olhar era penetrante como uma faca afiada pronta a cortar quem se atrevesse desafia-lo ou até contraria-lo.
- Onde está esse ser estranho? Perguntou ao bispo.
- Está preso na masmorra. Podemos ir até lá.
-Vamos então que eu não tenho tempo para desperdiçar.
Desceram vários degraus de pedra numa escada larga em forma de caracol, em frente a uma masmorra dois jovens vestidos como acólitos guardavam as portas com dois bastões rudimentares, ao verem o Bispo e o professor baixaram-se numa vénia e mantiveram-se em silêncio.
-Abram. Ordenou o Bispo.
Um dos jovens rodou uma grande chave metálica e fazendo força com o ombro empurrou a porta fazendo-a rodar sobre as suas velhas dobradiças.
Dentro de uma sala escura, apenas com uma janela situada junto ao tecto a uns bons seis metros de altura que deixava entrar a luz suficiente para se conseguir enxergar o indispensável, uma figura enrolada em posição fetal olhava para a porta e para os dois homens colocados de pé à sua frente.
- Mas que raio! Berrou o professor. Que figura sinistra é essa?
- Foi este o ser que encontramos, disse o bispo, tinha algum material com ele, que lhe confiscamos e que se encontra em nosso poder. Quando foi encontrado por populares nuns terrenos a meia dúzia de quilómetros daqui, toda gente dizia ser um santo, uma aparição divina, sabe como é a mente do povo…. E nós achamos que devemos dar razão ao povo…
- Ele fala?
- Diz umas palavras…., sabe professor nós pedimos-lhe que ele colaborasse connosco, que nos ajudasse a criar um grande milagre com a sua tecnologia mas ele apenas abana a cabeça negando…Sabe como é a Igreja precisa de um milagre…. As pessoas têm-se afastado…
- Compreendo, disse ainda mais baixo o professor; chamou-me aqui porque quer que eu seja conivente com a falsificação de um milagre… O que pretende concretamente Senhor Bispo?
- Bem, nós estava-mos a pensar… talvez com a tecnologia que queremos que o senhor professor veja, simular uma espécie de mensagem divina.
A voz do Bispo estava trémula de medo, respirou fundo e continuou com mais confiança:
- Sabe professor, a nossa Igreja está descapitalizada, noutros tempos dominamos as actividades , a cultura, enfim noutros tempos era a Igreja que pautava o desenvolvimento, sabia-se aquilo que nós queríamos que se soubesse, no entanto nos dias que correm as pessoas perderam o respeito, já não são tementes e precisamos de um milagre.
As palavras do bispo eram agora de emoção, falava como se estivesse a defender a causa de uma vida:
- Noutros países, em Espanha e em França por exemplo, existiram aparições divinas e o que é um facto é que as pessoas voltaram a acreditar… vão em força em peregrinações…
- Entendi. Interrompeu o professor com a sua voz débil. E porque acha que esse milagre seria importante para mim?
O Bispo sorriu.
-Sabe professor, eu sei tão bem como o senhor como é importante para si ter o povo ocupado e sem pensar… além disso dar-lhe à muito prestígio ser o líder de um país onde o divino se manifesta….
O diálogo foi interrompido por um barulho que vinha do “ser estranho” que se encontrava enrolado à sua frente, era um ser de cabeça disforme, oval com dois olhos grandes e uma boca sem dentes, era um pouco mais alto do que o bispo e o resto do corpo era muito parecido com um humano.
De um salto, o “ser estranho”, pulou por cima dos dois homens que gelaram de medo, mais dois saltos e estava na rua em fuga. De nada valeu os dois acólitos a agitarem as mocas e a tentarem ir no seu encalço pois o ser era demasiado rápido.
Apesar de doente e desfalecido o “ser estranho” caminhava pela noite:
- Preciso de ajuda pensava, tenho de conseguir falar com alguém...
Depois de se certificar que ninguém o seguia, o “ser estranho” entrou numa velha casa abandonada, para procurar um sítio macio onde pudesse descansar.
-Quem é você, ouviu-se uma voz.
O “ser estranho” não respondeu.
Pegando numa tocha artesanal, apontou no sentido do vulto e Artur das Cabras, que descansava no local, viu a siulheta do ser mais aberrante que alguma vez imaginara ver!

3 Comments:

At 16 novembro, 2005 21:05, Blogger north said...

Bem..!!!!!!

 
At 20 novembro, 2005 02:18, Blogger north said...

isso está parado!?!

 
At 20 novembro, 2005 15:41, Blogger Sei Bem said...

Está interessante!

 

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