DE PORTAS FECHADAS

[…] nenhum testemunho é suficiente para demonstrar um milagre, a não ser que o testemunho seja de natureza tal que a sua falsidade seja mais milagrosa do que o facto que tenta demonstrar.

26 novembro 2005

O Ripanço


Jeremias saiu de casa da velhota. Tinha voltado à estaca zero. Precisava de uma pista que o levasse a encontrar os animais estranhos que haviam pertencido ao seu tio.
Começava a desesperar e com vontade de voltar para casa:
- Não vim aqui fazer nada – pensava ele enquanto descia um caminho largo de terra batida que ia desembocar num cais fluvial.
Chegado ao rio Jeremias deparou-se com um rapaz, mais ou menos da sua idade que ajoelhado, consertava uma pequena embarcação de madeira.
O rapaz olhou-o de alto a baixo com um martelo numas das mãos como que para se defender de um potencial ataque.
- Bom dia – disse Jeremias com um ar sorridente esforçando-se por parecer amistoso.
- Quem és tu? A voz do rapaz era trémula como que para disfarçar uma gaguez evidente.
- Sou o Jeremias, vinha á procura de uma pessoa, mas já me disseram que morreu!
- Procuras o Tónio Anjinho não é? – Questionou o rapaz.
Jeremias ficou atónito. Como é que este rapaz podia saber quem ele procurava.
- É muito feio ouvir as conversas encostado às portas – ripostou Jeremias tentando verificar se fora desse modo que o rapaz obtivera a informação.
O rapaz deu dois passos na direcção de Jeremias, fazia agora um ar muito mais simpático:
- O meu nome é Ripanço - disse o rapaz. Eu era sobrinho do Tónio Anjinho e o meu tio disse-me antes de morrer que talvez o viessem procurar. Desde altura sempre que aparece alguém de novo por aqui eu fico a pensar que vem à procura dele.
- Mas o teu tio morreu. Certo?
- Certo. – Gaguejou o Ripanço. – Lembro-me como se fosse hoje, apanharam-no, amarraram-no e depois mataram-nos e tentaram fazer-nos acreditar que foi um acidente.
- E sabes quem foi?
-Não! Não sei quem foi. Mas nessa noite segui os assassinos do meu tio. Eles vieram para o matar e para lhe roubarem os dois animais estranhos que te trouxeram também a ti para cá. Não sei que segredos guardavam esses animais mas deve ser algo de muito importante…
- Seguiste-os? E para onde foram?
- Andei a pé durante sete noites. Apenas descansava durante o dia tal como os assassinos. Fiz um mapa do caminho e posso jurar que os animais foram levados para um grande convento perto de Sintra.
- Para um convento? Perguntou Jeremias baralhado?
- Se quiseres levo-te até lá tartamudeou o Ripanço.
A alguns metros dali a velhota, esforçava-se por tentar ouvir a conversa entre os dois rapazes.
- Não os posso deixar ir… murmurou a arcaica mulher.

1 Comments:

At 26 novembro, 2005 17:16, Anonymous Terreiro said...

Uf ... estava a ver que não apareciam.

 

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