DE PORTAS FECHADAS

[…] nenhum testemunho é suficiente para demonstrar um milagre, a não ser que o testemunho seja de natureza tal que a sua falsidade seja mais milagrosa do que o facto que tenta demonstrar.

27 dezembro 2005

A DESCODIFICAÇÃO


-Não vais a lado nenhum Ripanço! Berrou a velhota franzindo o sobrolho.
-Mas será que não percebe? È importante! Dizia o rapaz com veemência.
-És o meu único neto! Não tenho outra família. Peço-te. Não saias daqui! A voz da velhota era agora de angústia.
Jeremias sugeriu:
-Deixem. Eu vou sozinho.
-Vais perder tempo, sussurrou a velhota. È impossível descodificar o livro!
Jeremias ficou branco. Como saberia a velhota do livro e do descodificador?
- Só preciso que me indiquem o caminho por favor. Eu irei sozinho. Repetiu Jeremias.
A velhota resolveu abrir o jogo:
-Olha meu filho, eu sei da existência do livro que revela acontecimentos estranhos. Sei também que o livro foi guardado por dois animais estranhos que pertenceram ao teu tio. E por acaso sei também onde o livro está guardado e não teremos de fazer grande viagem para o ver…
-Não? Perguntou Jeremias.
-Não. Anda daí que eu mostro-to mas aviso-te já que não irás perceber patavina.
As três figuras saíram dali guiadas pela feição ainda ágil da velha e três vales adiante depuraram-se à entrada de uma gruta trancada com dois portões de madeira.
A velhota debruçou-se nuns arbustos contíguos e apareceu como uma grande chave na mão. Rodou a chave abrindo os portões em par. Jeremias pode verificar tratar-se de um pequeno local, pouco arejado e sem visibilidade onde apenas uma mesa de madeira velha e um banco de tronco de oliveira serviam de mobília.
A velhota abriu uma gaveta na parte debaixo da mesa e retirou um grande livro encadernado:
-Aqui está! Retorquiu. Mas despacha-te que temos que o recolocar aqui. Além disso não vais perceber nada.
Para espanto de todos, Jeremias retirou o descodificador do bolso e começou a traduzir:

"Tenho provas que provocarão o escândalo dos republicanos anticlericais, a divisão não poupará as fileiras católicas.
Uma forte polémica sobre Fátima anima a principal imprensa católica em Outubro e Novembro de 1917. Perante a prudência de todos os sectores da militância católica relativamente a relatos de aparições, sem dúvida que o milagre do 13 de Outubro em Fátima marcou uma primeira viragem da frieza para o entusiasmo. No entanto, rápida e importante, essa viragem não foi universal.Entre os presentes nessa data estava um dos mais destacados dirigentes do movimento católico, Domingos Pinto Coelho. Este advogado e proprietário miguelista, fundador e candidato pelo primeiro ensaio de partido católico em Portugal (em 1901), publica na primeira página do principal diário católico- A Ordem- um testemunho em que afirma peremptoriamente que está convencido que se presenciou não um milagre do Sol, mas um fenómeno natural: "Estes fenómenos [...] impressionaram-nos fortemente. (...) Uma dúvida nos restava porém. O que víramos no Sol era cousa excepcional? Ou reproduzir-se-ia em circunstâncias análogas? Ora precisamente essa analogia de circunstâncias proporcionou-se-nos ontem. (...) Vimos as mesmas sucessões de cores, o mesmo investimento rotativo, etc." E daí concluiu: "Eliminado pois o único facto extraordinário, que fica? (...) As afirmações de três crianças e nada mais. É muito pouco. (...) Voltámos de Fátima naquele mesmo estado de espírito em que para lá fôramos- na dúvida." (A Ordem, 16.10.1917; cit. António T. Fernandes, op. cit., pp. 93 ss.)Qual o sentido destas polémicas entre e no seio dos dois campos em confronto na questão religiosa- o republicano e o católico? Penso que é necessário tirar três conclusões fundamentais: a primeira é a de que esses campos em confronto estavam longe de ser uniformes; a segunda é a de que Fátima foi, desde o início, uma questão politizada; a terceira é a de que os videntes e as suas declarações foram marginalizados com uma enorme rapidez.Começando pelo fim: Lúcia e Jacinta teimam em declarar que a guerra acabara em 13 de Outubro de 1917, quando ela durou até Novembro do ano seguinte? Esse não é assunto que vá merecer grande atenção, o que importa na imprensa da época é estabelecer se houve um milagre ou uma fraude, qual o significado político do acontecido e quais as suas consequências em termos da questão religiosa.Quanto à primeira questão, se para muitos republicanos as aparições da Cova da Iria e o seu apoio popular são a confirmação da capacidade de manipulação do Jesuíta e de quão enraizada é a crendice popular que é preciso extirpar, para outros defensores do novo regime, o êxito das aparições- verdadeiras ou não- mostra aonde leva a política errada da ala mais anticlerical do republicanismo: ao acicatar da hostilidade popular contra a República.Note-se, no entanto, que mesmo entre os laicistas radicais não houve consenso sobre a forma de lidar com Fátima. Devia-se ignorar os acontecimentos ou requerer a intervenção das autoridades para fazer cumprir a intangível Lei da Separação, que tornava ilegal o tipo de ajuntamentos espontâneos realizados em torno dos videntes? Os mais importantes jornais desta corrente são o espelho disso: O Mundo segue a segunda via, a Montanha segue a primeira, e justifica assim o seu silêncio a respeito de Fátima: "Pergunta-nos um constante leitor a razão por que não falámos ainda no caso de Fátima. Pela simplicíssima razão de não costumarmos mexer em porcarias" (23.10.1917; cit. in António T. Fernandes, op. cit., p. 135).Os militantes católicos dividem-se sobre se houve ou não milagre em Fátima. Mas, com tanto ardor ou mais (apenas um pouco mais nas entrelinhas), discutem a utilidade ou o risco de Fátima para o esforço de mobilização que move as hostes católicas no sentido de se organizarem politicamente para combater o anticlericalismo. De um lado, Domingos Pinto Coelho acentua o perigo do descrédito para os católicos que Fátima representa, e recomenda estrita reserva; tanto mais que a massa amorfa de peregrinos não lhe parece poder vir a ser útil no esforço da mobilização católica. Do outro, Gonçalo Almeida Garrett entendia que, devidamente educada e enquadrada, a piedade informe dos peregrinos poderia ser de grande valor para a campanha em favor da restauração política e social da Igreja Católica, como se tornará claro pela sua acção posterior: foi ele quem elaborou, no início, dos anos 20 um célebre guia do peregrino e forneceu as letras fortemente politizadas de uma série de hinos que enquadrarão as grandes peregrinações anuais.Quanto à questão da politização de Fátima, no contexto do Portugal de Maio a Outubro de 1917 um acontecimento daquela natureza não podia deixar de ser aspirado para o centro da "questão religiosa" que era um elemento fundamental de vida política. Os sucessos da Cova da Iria buliam com aspectos essenciais da confrontação entre católicos (na oposição) e laicistas anticlericais (no poder): eram uma manifestação pública de religiosidade não autorizada pelas autoridades civis; e a suposta vinda de Nossa Senhora e o seu apelo à paz configuravam um duplo desafio ao projecto dos republicanos no poder. Em primeiro lugar, como uma embaraçosa emergência do delírio religioso que pretendiam eliminar. Em segundo lugar, pondo em causa o esforço de guerra, prioridade absoluta de Afonso Costa e dos seus seguidores, mas que lhes causava enormes dificuldades internas.A afirmação de Lúcia e Jacinta de que a Senhora tinha dito que a guerra acabava em 13 de Outubro de 1917 e que os soldados iam regressar, não correspondendo à realidade, revela uma verdade essencial: o clima de crise geral que "politiza" um meio rural alheio à política num sentido mais "sofisticado". A preocupação com a guerra é uma pulsão essencial no desenhar da relação dos videntes com a Senhora. É praticamente a única coisa sobre a qual as figuras do clero vindas para interrogá-los os interrogam por iniciativa própria. E é das poucas coisas sobre as quais as autoridades por sua vez interrogam essas figuras. Lúcia pergunta ao padre José F. Lacerda, capelão militar no CEP em licença em Outubro de 1917: "Olhe cá, aquilo lá na guerra morre muita gente?- A Jacinta tem lá um irmão..." (In Documentação Crítica de Fátima. I. Interrogatórios aos videntes- 1917, Santuário de Fátima, p. 353). Este irmão mais velho de Francisco e Jacinta- "o meu Manuel"- fora recrutado e enviado para Cabo Verde, o que para as crianças e os seus pais é a guerra na mesma”


Jeremias foi interrompido na sua tradução por um golpe de machado que lhe cortou a nuca prostrando-o por terra. A última imagem que viu foi um medalhão que pendia do peito da velha onde uma fotografia antiga de um homem baixo de cara redonda e avermelhada parecia sorrir.
A velhota recolheu o livro e o descodificador.
- Vamos Ripanço a nossa missão está cumprida!

FIM

08 dezembro 2005

A MORTE DE ARTUR DAS CABRAS


Artur entrou na carroça aliviado. Finalmente ia voltar para a sua casa e ia poder descansar de todos estes fenómenos que nunca lhe passara pela cabeça poder ver.
A carroça era puxada por dois cavalos pretos, fortes como dois bois de jugo e em menos de um ápice estariam nas terras da beira em casa.
Seis horas depois de terem saído de Sintra o homem baixo de cara redonda e avermelhada parou bruscamente a carroça.
-Onde estamos? Perguntou Artur atónito.
-Hoje vai assistir a algo grandioso antes de ir para casa. Mas não se preocupe não levará muito tempo!
Saltaram da carroça e esconderam-se atrás de uns arbusto baixos, dali podiam ver todo um vale descampado, apenas uma ou outra árvore rasteira picotava a extensa planície.
-Mas que raio? Que vamos fazer? Bramia Artur das Cabras.
- Calma, quero apenas ver se corre tudo bem! E além disso você será testemunha…
De repente Artur vislumbra três crianças que brincavam por ali, ainda esfregava os olhos a tentar descobrir outros factos de interesse no vale, quando um clarão lhe chamou a atenção.
Artur já tinha visto um clarão igual, mas desta vez para seu espanto, uma senhora toda vestida de branco assomou no cimo de uma azinheira.
Artur ainda estava em transe quando o homem baixo de cara redonda e avermelhada o agarrou pelo braço a sussurrar:
- Correu tudo como planeado. Vamos depressa!
- Artur estava esgazeado, não conseguia formar ideias coerentes na sua cabeça; horas depois já a carroça recortava a estrada de sul para norte, quando finalmente consegui perguntar:
- Estamos a ir para casa?
-Claro, respondeu o homem baixo de cara redonda e avermelhada – e agora você é também uma testemunha do maior acontecimento de sempre. O homem baixo de cara redonda e avermelhada fez uma pausa, olhou Artur de alto a baixo e suspirou:
-Você Artur, foi um privilegiado…
Artur não disse mais nada, era tudo muito confuso, fechou os olhos e quando os voltou a abrir estava diante da sua casa.
-Adeus! Disse o homem baixo de cara redonda e avermelhada, - está entregue, tenho a certeza que vai ouvir falar muito no fenómeno que hoje viu.
Artur apenas conseguiu fazer um gesto com a cabeça. Subiu os degraus de pedra abriu a porta da rua e estendeu-se ao comprido na velha cama de madeira; dormiu durante dois dias, acordou com as pessoas na rua a gritar:
-Foi um milagre! Somos uma nação protegida!
Artur não disse uma palavra, levantou-se e viu em cima da mesa um grande livro aberto. Debruçou-se para tentar ver o que dizia, mas depressa percebeu que não estaria escrito na sua língua pois não percebia uma única palavra. De repente Artur lembrou-se do “Ser Estranho” e do seu rebanho.
Estariam lá as cabras de que o “Ser Estranho” lhe falara?
Artur foi a uma gaveta de onde retirou uma velha caneta, tinham sido poucas as vezes em que a utilizara; debruçou-se de novo e escreveu três páginas no final do livro que alguém ali deixara:
-É o meu testemunho! Pensou.
Ao lado do livro, duas páginas soltas tinham uns rabiscos que pareciam ser letras e símbolos, Artur aproximou-as dos seus grandes olhos e pode verificar que se tratava de uma tabela de código: Depressa percebeu o que era. Cada símbolo tinha à frente a letra correspondente. Era a forma de traduzir o velho livro que estava na mesa.
Preparava-se para iniciar a descodificação quando foi interrompido por um barulho. Estava alguém a bater à porta.
Artur escondeu o livro num buraco da parede e foi ver quem era.
-Artur, há quanto tempo! Disse uma voz.
-Entra Tónio Anjinho.
- Nem queres saber do teu rebanho…Olha, eu tenho tratado dele e quero-te dizer que estranhamente apareceram por lá mais duas cabras….
Artur agarrou-lhe no braço e perguntou com a voz a tremer:
- E essas cabras são normais?
- Claro que são normais, mas porque perguntas isso?
- Têm acontecido coisas estranhas, mas entra que eu conto-te tudo.
Artur contou ao amigo todos os acontecimentos estranhos em que estivera envolvido, o bispo, o ser estranho, a aparição…
-Incrível disse Tónio Anjinho, mas tem cuidado que podes ter visto demasiadas coisas.
-Se me acontecer alguma coisa trata-me do gado. Disse Artur despedindo-se do amigo.
Tónio Anjinho saiu dali não querendo acreditar que Artur havia ficado louco.

Nessa noite dois homens entraram em casa de Artur, bateram-lhe e torturam-no mas a única coisa que conseguiram arrancar-lhe foram as folhas que continham o descodificador.
No dia seguinte Artur foi encontrado morto, debaixo de uma carroça.