DE PORTAS FECHADAS

[…] nenhum testemunho é suficiente para demonstrar um milagre, a não ser que o testemunho seja de natureza tal que a sua falsidade seja mais milagrosa do que o facto que tenta demonstrar.

08 dezembro 2005

A MORTE DE ARTUR DAS CABRAS


Artur entrou na carroça aliviado. Finalmente ia voltar para a sua casa e ia poder descansar de todos estes fenómenos que nunca lhe passara pela cabeça poder ver.
A carroça era puxada por dois cavalos pretos, fortes como dois bois de jugo e em menos de um ápice estariam nas terras da beira em casa.
Seis horas depois de terem saído de Sintra o homem baixo de cara redonda e avermelhada parou bruscamente a carroça.
-Onde estamos? Perguntou Artur atónito.
-Hoje vai assistir a algo grandioso antes de ir para casa. Mas não se preocupe não levará muito tempo!
Saltaram da carroça e esconderam-se atrás de uns arbusto baixos, dali podiam ver todo um vale descampado, apenas uma ou outra árvore rasteira picotava a extensa planície.
-Mas que raio? Que vamos fazer? Bramia Artur das Cabras.
- Calma, quero apenas ver se corre tudo bem! E além disso você será testemunha…
De repente Artur vislumbra três crianças que brincavam por ali, ainda esfregava os olhos a tentar descobrir outros factos de interesse no vale, quando um clarão lhe chamou a atenção.
Artur já tinha visto um clarão igual, mas desta vez para seu espanto, uma senhora toda vestida de branco assomou no cimo de uma azinheira.
Artur ainda estava em transe quando o homem baixo de cara redonda e avermelhada o agarrou pelo braço a sussurrar:
- Correu tudo como planeado. Vamos depressa!
- Artur estava esgazeado, não conseguia formar ideias coerentes na sua cabeça; horas depois já a carroça recortava a estrada de sul para norte, quando finalmente consegui perguntar:
- Estamos a ir para casa?
-Claro, respondeu o homem baixo de cara redonda e avermelhada – e agora você é também uma testemunha do maior acontecimento de sempre. O homem baixo de cara redonda e avermelhada fez uma pausa, olhou Artur de alto a baixo e suspirou:
-Você Artur, foi um privilegiado…
Artur não disse mais nada, era tudo muito confuso, fechou os olhos e quando os voltou a abrir estava diante da sua casa.
-Adeus! Disse o homem baixo de cara redonda e avermelhada, - está entregue, tenho a certeza que vai ouvir falar muito no fenómeno que hoje viu.
Artur apenas conseguiu fazer um gesto com a cabeça. Subiu os degraus de pedra abriu a porta da rua e estendeu-se ao comprido na velha cama de madeira; dormiu durante dois dias, acordou com as pessoas na rua a gritar:
-Foi um milagre! Somos uma nação protegida!
Artur não disse uma palavra, levantou-se e viu em cima da mesa um grande livro aberto. Debruçou-se para tentar ver o que dizia, mas depressa percebeu que não estaria escrito na sua língua pois não percebia uma única palavra. De repente Artur lembrou-se do “Ser Estranho” e do seu rebanho.
Estariam lá as cabras de que o “Ser Estranho” lhe falara?
Artur foi a uma gaveta de onde retirou uma velha caneta, tinham sido poucas as vezes em que a utilizara; debruçou-se de novo e escreveu três páginas no final do livro que alguém ali deixara:
-É o meu testemunho! Pensou.
Ao lado do livro, duas páginas soltas tinham uns rabiscos que pareciam ser letras e símbolos, Artur aproximou-as dos seus grandes olhos e pode verificar que se tratava de uma tabela de código: Depressa percebeu o que era. Cada símbolo tinha à frente a letra correspondente. Era a forma de traduzir o velho livro que estava na mesa.
Preparava-se para iniciar a descodificação quando foi interrompido por um barulho. Estava alguém a bater à porta.
Artur escondeu o livro num buraco da parede e foi ver quem era.
-Artur, há quanto tempo! Disse uma voz.
-Entra Tónio Anjinho.
- Nem queres saber do teu rebanho…Olha, eu tenho tratado dele e quero-te dizer que estranhamente apareceram por lá mais duas cabras….
Artur agarrou-lhe no braço e perguntou com a voz a tremer:
- E essas cabras são normais?
- Claro que são normais, mas porque perguntas isso?
- Têm acontecido coisas estranhas, mas entra que eu conto-te tudo.
Artur contou ao amigo todos os acontecimentos estranhos em que estivera envolvido, o bispo, o ser estranho, a aparição…
-Incrível disse Tónio Anjinho, mas tem cuidado que podes ter visto demasiadas coisas.
-Se me acontecer alguma coisa trata-me do gado. Disse Artur despedindo-se do amigo.
Tónio Anjinho saiu dali não querendo acreditar que Artur havia ficado louco.

Nessa noite dois homens entraram em casa de Artur, bateram-lhe e torturam-no mas a única coisa que conseguiram arrancar-lhe foram as folhas que continham o descodificador.
No dia seguinte Artur foi encontrado morto, debaixo de uma carroça.

3 Comments:

At 08 dezembro, 2005 22:22, Blogger north said...

já temia que não voltassem!!

 
At 09 dezembro, 2005 01:59, Blogger GreenSky said...

O Tónio Anjinho teria dito - Óh pás, és mesmo tu? pareces o Artur pás? uuhhh das chiretas, conheces o presidente da América, pás? e que têm as cabras pás? não são tuas pás? quem tem dois dedos iguais nunca morre.

 
At 24 dezembro, 2005 04:31, Blogger Afrodite said...

FELIZ NATAL !

§(~_~)§ beijo da Afrodite

 

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